Em 2004 o Thiago Neves despontou no Paraná com 19 anos, e assinou Contrato Trabalhista e Desportivo vigente até hoje [de 01/07/2004 até 31/12/2009]. Em 2005 ele passou a atuar pela equipe principal do Paraná, tendo realizado 26 jogos e marcado 4 gols.

1º Capítulo - Paraná Clube, mas pode chamar de L.A. Sports
Voltando um pouco, em 2003 o empresário curitibano Luiz Alberto Martins de Oliveira Filho fez um acordo comercial com o Paraná Clube: Criou a empresa L.A.Sports que passou a bancar a infraestrutura das categorias de base do clube, recebendo em troca 50% do valor de venda dos atletas revelados. Este foi o caso de Gustavo, Pierre e Cristiano, que vieram ao Palmeiras neste ano, junto com o técnico Caio Junior. Os tres jogadores estão na carteira da empresa. E foi assim que o Thiago Neves despontou em 2005, como atleta do Paraná, mas tendo a L.A.Sports direito a 50% da receita em caso de venda do jogador.

2º Capítulo - Leo Rabello entra em cena
Em Janeiro de 2006 o carioca Léo Rabello - aquele que trouxe Misso, Donizetti, Tuta e Lopes para o Palmeiras - dono da "Systema Assessoria Financeira Ltda" associou-se ao empresário Luiz Alberto da "L.A.Sports" para alguns "negócios" no Paraná. Seu coterrâneo, Joel Santana, acabava de assumir o "Vegalta Sendai", uma equipe da segunda divisão do Japão, e o Léo Rabello conseguiu emplacar o empréstimo dos atacantes Borges e Thiago Neves [ambos do Paraná] além do Lopes [aquele mesmo]. O desconhecido Thiago Neves foi por 1 ano, pela bagatela de US$ 400.000.

Num fato ainda não esclarecido, dois meses depois desta negociação [provavelmente quando o dinheiro estava sendo pago], o empresário Leo Rabello [através da Systema Ass.Financ.] comprou 60% dos direitos comerciais do jogador, exatamente por US$ 400.000 [teria pago US$ 200.000 para o Paraná e US$ 200.000 para a L.A.Sports]. Desta forma, os direitos comerciais do atleta passavam a ser 60% da Systema [Rabello] + 20% da L.A.Sports [Luiz Alberto] + 20% do Paraná.

A impressão clara, é de que o empresário Leo Rabello não colocou a mão no bolso. Em troca da intermediação, comprou os 60% com o valor pago pelos japoneses do Vegalta.

3º Capítulo - Escândalo no Paraná
Em dezembro de 2006 o Thiago Neves retornou do Japão, direto para o Fluminense por empréstimo de um ano junto ao Paraná.

No meio do ano, já era considerado uma grande revelação, tendo ajudado o Fluminense a conquistar a Copa do Brasil. Estranhamente, um mês após a conquista, em 09/07/07, o Presidente do Paraná entregou os 20% restantes de direitos comerciais do clube à dupla de empresários [12% para a L.A.Sports e 8% para a Systema] em troca da quitação de uma dívida de R$ 231.000 com os dois. Como agravante, assinou no mesmo contrato uma cláusula de multa de R$ 6 milhões caso o Paraná viesse a obstruir qualquer negociação do jogador no futuro.

A partir desta data, 09/07/07, os direitos federativos [contrato trabalhista e desportivo] continuam com o Paraná, mas um contrato comercial estabelece que em caso de negociações comerciais, 68% das receitas pertencem à Systema [Leo Rabello] e 32% à L.A.Sports [Luiz Alberto].

No Paraná o assunto se torna o maior escândalo da história do clube, já que ninguém - fora o Presidente, nem mesmo os Conselhos do clube, sabia da venda anterior de 30%, realizada em Abril, ou seja, o Paraná ficou sem absolutamente nada. O Presidente José Carlos de Miranda foi afastado e surgiram gravações, fotos, filmagens e documentos comprovando todo tipo de negociatas no clube. O próprio Presidente, diante da ameaça de divulgação das gravações, assumiu publicamente as ações de Caixa 2, e de depósitos de dinheiro do clube realizados na sua conta pessoal. No momento ocorre uma operação abafa no clube, que busca evitar expor situações que levariam a punições ainda mais rigorosas ao clube.

4º Capítulo - O Contrato com o Palmeiras
Em 18/08/07, um mês após a negociata que deixou o Paraná de fora da disputa comercial, o empresário Luiz Alberto da L.A.Sports, negociou com o Palmeiras o contrato com o jogador. É importante lembrar que o empresário passou a ter grande relacionamento com os dirigentes do Palmeiras, por ocasião das vindas do Pierre, Cristiano e Gustavo no início da temporada. No caso, o jogador assinou um contrato de 4 anos, que passaria a vigorar em Janeiro de 2008 - quando se encerra o contrato atual de empréstimo com o Fluminense, recebeu uma antecipação [dizem ser de 400 mil] e assumiu uma cláusula de multa de 2,4 milhões em caso de não cumprimento.

No final de setembro, a despeito das negativas do jogador e do Palmeiras, o fato certamente vazou, e chegou ao conhecimento de Fluminense e do Leo Rabello. Neste contexto o jogador foi afastado do elenco, e no dia 01/10/07 o Rabello conseguiu uma liminar em primeira instância na 7ª Vara Cível da Barra da Tijuca [Juiz Antônio Aurélio Abi-Ramia Duarte], impedindo qualquer negociação do jogador com outros clubes sem a anuência e participação da Systema, em função do contrato que a mesma possui com o Paraná.

Na mesma semana, o jogador foi pressionado pelo Leo Rabello a assinar um contrato de renovação com o Fluminense por 3 anos, contrato assinado em 05/10/07.

Dias depois, em 19/10, orientado pelo empresário Léo Rabello, Thiago Neves entrou na Justiça Trabalhista do Paraná [18ª Vara] pedindo liberação do vinculo trabalhista com o Paraná Clube. A ação é de autoria de Thiago Neves e da empresa Systema Assessoria Financeira Ltda, de Léo Rabello, que detém 68% dos direitos comerciais do atleta. Na ação, além do Paraná Clube, a empresa L.A. Sports Ltda que tem 32% dos direitos federativos também é citada como ré.

A multa rescisória seria de R$ 3,9 milhões, mas com os redutores da Lei Pelé os valores seriam R$ 2,39 milhões, que já teria sido depositado pelo Léo Rabello.

CONCLUSÕES

Vinculo Desportivo [Direitos Federativos] - Este é exclusivamente realizado entre um atleta e uma Entidade de Prática Desportiva. No caso existe um Contrato Definitivo registrado na CBF em nome do Paraná Clube, vigente até 31/01/2009. Existe ainda um contrato de empréstimo ao Fluminense Futebol Clube, registrado na CBF, com vencimento em 31/12/2007. Em tese, no dia 01/01/08 o jogador retornaria ao Paraná Clube. A única hipótese de ele ir para Fluminense ou Palmeiras, será:

a) Com a vontade do jogador e com a liberação e anuência do Paraná Clube. Os empresários contam com isso, baseado no contrato "comercial" que impõe multa de 6 milhões de reais caso o Paraná impeça qualquer negociação representada pelos mesmos.

b) Com a rescisão do contrato vigente com o Paraná. É o que estaria pretendendo o Léo Rabello através da ação na Justiça Trabalhista do Paraná, pagando R$ 2,39 milhões ao clube.

L.A.Sports - O Luiz Alberto tentou levar o jogador para o Palmeiras. Provavelmente perderia aqueles 32% que detém contratualmente, frente ao Paraná, mas certamente receberia alguma compensação e uma participação nesta nova fase do jogador. Parece ter sido pego no pulo e está numa situação difícil nesta queda de braço.

Systema - O Léo Rabello parece estar em vantagem. Enquanto o vínculo com o Paraná for mantido ele tem os 62% de qualquer negociação. Se o vínculo for quebrado na Justiça do Paraná [por ação de sua iniciativa], acabará ficando com 100% manténdo o jogador no Fluminense.

Fluminense - Está com o empresário majoritário e o atleta do seu lado. A preocupação maior certamente é a de ajudar o jogador a se livrar do problema dos 2 contratos. Na melhor das hipóteses, negociará com o Palmeiras a devolução dos 400 mil adiantados. Na pior, terá que ajudar o jogador a pagar os 2,4 milhões de multa, fora os riscos de impedimeto na justiça.

Palmeiras - Dificilmente ficará com o atleta. Apostou na jogada do empresário, sabendo dos riscos, e parece estar numa situação tranquila. Deve aguardar a posição do Fluminense, para alguma compensação financeira.

Paraná - Poderia negociar o jogador à revelia dos empresários, mas teria de pagar os 6 milhões de reais pela multa do contrato comercial que assinou. Não está disposto a isso. Ao contrário, quer se livrar do vínculo com o jogador, e já !! não em 2009. O pensamento dos dirigentes é: não temos mais nada a receber e ainda corremos o risco, nesta briga de empresários, de ter de pagar os 6 milhões do que se sentir impedido de concretizar a negociação a seu favor.

Perguntas:

- Este processo que estourou no STJD para tirar 72 pontos do Paraná, por causa de um jogador com documentação irregular está relacionado de alguma forma com o jogo de pressões, chantagens e ameaças que giram em torno dos milhões do Thiago Neves ?

- Procedem as denuncias no Paraná, de que o ex-Presidente seria sócio oculto do Léo Rabello nas negociações atuais ?

- O Lateral Esquerdo Leandro do Palmeiras, que "pertence" ao Léo Rabello, permanecerá em 2008 ?

- O Thiago Neves vale tudo isso ?

Luciano Pasqualini

ANEXO - ATUALIZAÇÃO

a) Os contratos do Palmeiras e do Fluminense, são por enquanto, contratos de gaveta. Na prática eles não tem validade no mundo esportivo, e pior, são ilegais, sujeitando os clubes à penalidades. Explico: Como o atleta mantém até esta data um contrato válido com o Paraná Clube, registrado na CBF, com vencimento somente em Janeiro/2009, nenhum dos dois clubes poderia realizar um pré-contrato com o atleta, pois a Lei só permite isso 6 meses antes do vencimento. No caso do Fluminense, uma eventual alegação de ser uma extensão do empréstimo também seria ilegal por registrar um período maior que o contrato existente com o Paraná.

b) No fundo, os dois contam com a liberação do vinculo desportivo dele com o Paraná, para usarem seus contratos. O Paraná concorda em liberar, ou melhor, não abrirá a boca para não pagar os 6 milhões de multa que tem com os empresários, caso prejudique qualquer negociação. Então qual o problema ? Em tese, bastaria ir na Justiça Trabalhista do Paraná e pagar a multa recisória, mas enquanto os empresários não se acertarem, isso vira um jogo de liminar em cima de liminar...

c) A conclusão parece simples e previsível: O Thiago permanecerá no Fluminense, o Palmeiras será recompensado, e os empresários irão se entender, e todos saem ganhando. Se não houver entendimento entre os empresários, os dois saem perdendo junto com o jogador, que será acionado pelo Palmeiras.

Luciano Pasqualini