Pode parar. Diante de quase 25 mil pessoas, que mais uma vez proporcionaram uma renda perto de 900 mil reais, o Palmeiras protagonizou um vexame, e fechou o turno, apesar de mantendo a dianteira, permitindo aos rivais tirar a distância, e deixando a disputa muito aberta depois de ter sinalizado que seria um time que dispararia na liderança, mesmo com os empates frente ao Grêmio em casa e Atlético, fora. O Inter, com dois jogos a menos, volta a ser líder por pontos perdidos.
Nesses jogos o Palmeiras se impôs, e os resultados foram apenas circunstanciais. O time mostrou uma superioridade incontestável, e a impressão é que, em jogos fáceis como os de hoje, o resultado a ser esperado não poderia ser outro a não ser uma vitória esmagadora, não necessariamente uma goleada elástica, mas a imposição da autoridade típica dos times campeões. Infelizmente o que se viu hoje no Palestra foi um time vacilante, com limitações técnicas gritantes, mais falhas grosseiras, e um problema sério quando precisa recorrer ao banco.
O Botafogo, apesar da camisa gloriosa num passado distante, hoje é um time pequeno, com orçamento de time pequeno, com torcida de time pequeno, em colocação de time pequeno. Só podia vir ao Palestra e se comportar como time pequeno, não se podia esperar nada diferente disso. O Palmeiras, como time grande, com estádio lotado, líder do campeonato, tinha que agir como time grande, e sufocar o adversário, não deixá-los respirar, e impor a derrota com a devida autoridade. Mas podemos notar que uma perigosa auto-suficiência começa a tomar conta do elenco. E esse é o primeiro passo para o fracasso.
O senhor Diego Souza, hoje, brincou com a torcida. Não é porque tem sido um jogador brilhante há vários meses que está imune a críticas e não pode ser responsabilizado pelos maus resultados quando é o caso. Hoje ele teve uma bola dominada, em velocidade, sozinho, de frente para o gol, era só escolher o canto. Sua tentativa de driblar o goleiro foi ridícula, um insulto à massa palmeirense no Palestra. Isso não se faz.
Muricy armou o time novamente no 4-5-1, ou podemos até interpretar como um 4-3-2-1, com Diego Souza e CleitonX com bastante liberdade para chegar à frente, e um trio de volantes que em tese deveria dar consistência ao meio-campo, como fez em BH no jogo passado. Mas sábadão, feijoada, sabe como é. O time estava com o freio de mão puxado, as coisas não aconteciam, e embora o Botafogo não conseguisse jogar, isso se deu mais pela postura tática retraída que convinha a um time pequeno. Ainda no primeiro tempo, os cariocas perceberam que o bicho não era tão feio assim, e passaram a acreditar que poderiam sonhar em algo a mais que segurar um empate.
Essa impressão ficou mais latente ainda quando, numa falta batida pela esquerda, a bola foi rebatida para o chão por Mauricio Ramos – a falha nossa de cada jogo – e sobrou para André Lima dentro da área; o atacante bateu firme e venceu Marcos, aos 24 minutos. O Botafogo ainda teve um pênalti não marcado, de Pierre sobre Lúcio Flavio. Sim, amigos, dessa vez o juiz errou a nosso favor. Pelo menos isso.
O Palmeiras tinha perdido até então apenas duas oportunidades de gol, e em bolas paradas: um desvio de Diego Souza, de cabeça, de costas para o gol, e uma falta cobrada na trave por CleitonX. Nada que intimidasse ao Botafogo, que após seu gol fechou mais ainda o meio de campo, fazendo com que o Palmeiras passasse a depender demais de jogadas pelos flancos, com os avanços de Wendel e Armero. Aí complica…
Mesmo assim, o Verdão conseguiu o empate – e só podia ser de bola parada. CleitonX cobrou uma falta longa, mas frontal, na marca do pênalti. Pela trajetória da bola, a hora que o goleiro ameaçou subir e Danilo saiu do chão já se podia comemorar. Fazia tempo que um gol não era desenhado tão antes da conclusão da jogada. E com trinta e poucos minutos, apesar da péssima partida, podíamos ter esperança de que as coisas, se não fossem mudar ainda no primeiro tempo, mudariam no segundo.
Mas não foi o que se viu. Com Diego Souza exagerando nas jogadas de efeito, Souza e Sandro Silva nem de longe dando a qualidade no passe que se precisa num esquema como o proposto por Muricy, e principalmente a burrice de Wendel e Armero na construção de suas jogadas pelas laterais, a esperança do Palmeiras passou a ser apenas as bolas paradas, principalmente depois da jogada em que Diego Souza saiu na frente do goleiro e não decidiu a partida, ainda aos 10 minutos da etapa final. Isso porque Marcos já tinha salvado a pátria antes desse lance, numa jogada em que Armero levou até drible da vaca e André Lima saiu de frente com nosso santo, depois de tabelinha envolvente do ataque do Botafogo (onde vamos parar assim?). No final, apesar das tentativas de Muricy colocando Daniel e promovendo a estréia de Robert, o time não teve forças para buscar o resultado, frustrando a massa que lotou o Palestra, e deixando um gosto amargo nesse fechamento de turno.
Se temos que tirar lições de vexames como o de hoje, que sejam tiradas: Armero não está nem perto de ser a solução para a nossa lateral-esquerda. Se tivermos que optar entre ele e Ortigoza para abrirmos mais uma vaga para estrangeiro, o paraguaio, de longe, merece permanecer no Palestra. Wendel é um caso perdido, mas pra posição dele esperamos a estréia do chileno Figueroa. Alguém sabe por que ele não joga? O Robert foi contratado outro dia e já entrou em campo…
Sandro Silva e Souza precisam entrar numa maré de regularidade se quiserem garantir um lugar no time. Edmilson, apesar da deficiência no combate, faz muita falta quando temos a posse de bola. Por fim, Diego Souza fez uma de suas piores partidas pelo Verdão, pior que as piores do ano passado, com preciosismo, displiscência e excesso de auto-confiança. Tá precisando levar uma bela comida de rabo.
E pra não ficar só descendo a ripa, vamos elogiar o desempenho de CleitonX e Ortigoza. O primeiro, além da assistência para o gol de Danilo, ainda bateu uma bola na trave e arrumou o passe com açúcar pra Diego Souza fazer aquela presepada. Já Ortigoza esbanja vontade, mesmo com o contrato por vencer, e sua movimentação e força deixam qualquer defesa preocupada. Gostei quando Muricy tirou o Sandro Silva, mas não quando saiu o paraguaio, para colocar dois atacantes descansados. Sou mais o Ortigoza cansado que qualquer um dos que entrou.
É verdade que o Palmeiras foi o time mais prejudicado pela tabela nessas rodadas, tendo o jogo adiado para o meio da semana à noite, e jà tendo que jogar de novo no sábado, enquanto todos os times vieram com a semana limpa – com exceção do Atlético, e dos times que jogaram a Sulamericana. Mesmo assim, o desgaste físico, que é real e certamente foi uma das razões da apatia vista hoje, não pode ser desculpa. São profissionais que têm que aguentar esse tranco, por isso que tem um nível de remuneração tão elevado. O resultado de hoje é inaceitável. Alguma coisa tem que mudar.
Atuações:
Marcos: um milagre e algumas saídas atrapalhadas em bolas altas. 8
Wendel: vai fazendo o que pode, ele é um cara legal. 5
Mauricio Ramos: jogou bem, mas o gol saiu em mais uma falha sua. 4
Danilo: fez o dele, mas lá atrás vacilou, tomando até tabelinha do ataque do Botafogo. 7
Armero: parecia o Baiano canhoto. 2,5
Pierre: muito distante dos outros dois volantes, não teve a eficiência de costume. Precisam compactar mais. 6
Sandro Silva: pra fazer o que fez, até o Wendel de volante faria. 4
Souza: parecia que estava numa noite boa, com duas jogadas de efeito. Depois, sumiu. 6
CleitonX: já ultrapassou Diego Souza como o melhor do time. Se ele pudesse repartir sua inteligência com dois ou três do time… 9
Diego Souza: sem firula, seu Diego. Vamos jogar bola, pô. 1,5
Ortigoza: em outubro seu contrato vai vencer de novo. Fica, Ortigoza. 8,5
Daniel: vai se soltando, até achei que ele ia dar uma de Lovão e ia fazer o dele. Foi um delírio de arquibancada, momentâneo. 6
Robert: tímido, até teve tempo pra levar uma nota, mas vamos quebrar o galho. S/N
Muricy: já se ligou que com esses laterais não rola, e fez o esquema pelo miolo, que não é seu favorito. Podia ter funcionado, o que atrapalhou hoje foi a falta de presença de nossos jogadores. 7