Por essa ninguém esperava. Tínhamos fé que esse tempo extra que o Palmeiras teve para treinar seria útil, que a mudança na postura tática seria benéfica, que os boatos estúpidos lançados por aí serviriam para deixar o grupo com mais sangue no zóio… Mas quatro a zero, com três de Obina, ninguém esperava.
Ou melhor: tem um cara que esperava. Meu amigo Toninho. Em nossa lista de e-mails durante o dia, diante da descrença de muitos, inclusive deste aqui, ele cravou: “vai ser 4×0″. E pior: disse que seriam 3 do Obina, para gargalhada geral. São 90 testemunhas.
A entrada para o jogo foi cercada de muita, muita apreensão. Todos estavam muito conscientes que era jogo de vida ou morte. Se perdesse, adeus – nem tanto pela pontuação, mas pelo moral do time, que seria esmigalhado. Encontrei o Toninho mais o Roberval e o Victor no clube antes do jogo e fomos para a arquibancada. Toninho, esbanjando confiança. Impressionante.
O jogo começou bom. No 3-5-2, o Verdão usava e abusava dos alas, que corresponderam. A defesa do Goiás, composta por três jovens cuja média era 20 anos, dava pinta que se forçasse, eles confessavam. E o Verdão foi pra dentro. Na primeira boa jogada, Obina foi ao fundo e cruzou para Ortigoza, que preferiu dominar e deu tempo para a recuperação do zagueiro. No escanteio, Ortigoza bateu firme, e ela saiu rente.
O Goiás, por sua vez, forçava as bolas enfiadas para Iarley. Nossos três zagueiros não entraram num acordo sobre quem o marcaria, e com muita movimentação, principalmente sobre Marcão, ele pintou e bordou. Com a aproximação de Fernandão, foi sempre um atacante muito perigoso. Nas bolas aéreas, o Goiás também ofereceu bastante perigo. Mas o Palmeiras ainda teria mais duas ótimas chances, com Diego Souza, que estava bastante marcado, mas conseguiu uma boa arrancada e bateu da entrada da área, rente à trave esquerda de Harlei, e numa cobrança de falta, que beijou a forquilha.
Perto dos 30, o lance decisivo: Edmilson sentiu a coxa e foi substituído por Sandro Silva. O time mudou muito. Sandro Silva, que havia treinado no time titular durante boa parte da semana, foi muito mais presente e foi preponderante no domínio definitivo do meio-de-campo. Por várias vezes se deslocou para a direita e trocou com Figueroa, confundindo a marcação. O time engrenou.
No intervalo, Toninho admitiu, preocupado, que achava que não ia mais dar seus 4×0. Fiz uma cara de desprezo, afinal, claro que não seria 4×0, era jogo pra 1×0 suado no fim do segundo tempo. Isso se tirassem o morto do Obina, que pegou três vezes na bola.
O time voltou igual. O Goiás veio mais avançado, e estranhamente escancarou o meio. Um buraco enorme deixou o trio de zagueiros completamente desprotegido. E logo aos quatro minutos, a porteira finalmente se abriu: Souza fez o que sabe fazer melhor – roubar bolas, e teve que dividir duas vezes – pra depois fazer o que faz de pior – passar a bola, o que desta vez fez magistralmente. O passe achou Obina na corrida, na distância e na passada perfeitas. E Obina, bem mais magro, em total forma física, chegou na bola e acertou um míssil, com enorme precisão, inaugurando o placar.
Foi um grito de gol muito, muito intenso. Como há muito eu não ouvia no Palestra, apesar de mais vazio que o costume. Os dezoito mil palmeirenses que compareceram ao estádio incentivaram durante todo o primeiro tempo, como uma legítima torcida portenha. Todos os que foram compreenderam a necessidade de jogar junto com o time. E os três jogos e meio sem balançar as redes já estavam judiando demais dessa torcida. O gol libertou muito mais que um grito da garganta: tirou também um caminhão das costas de cada jogador.
O Goiás, que também está numa fase terrível, tentou se rearrumar, com a entrada de Ramalho para reforçar o meio, mas não adiantou. Muricy forçou o jogo pelas laterais, e com o apoio de Ortigoza, que correu como um maluco, e de Sandro Silva, o trio defensivo dos goianos teve que se espalhar. Assim, com bastante espaço, aos 29 surgiu a jogada do pênalti sofrido por Ortigoza, e que Obina bateu não muito bem, mas forte, dificultando a defesa para Harlei que foi certinho na bola.
O placar anunciava a vitória parcial do Fluminense sobre o Atlético, e a festa estava completa. Ou pelo menos parecia. Toninho fazia as contas, e voltou a acreditar nos 4×0. Afinal, Obina já tinha feito dois. E Muricy resolveu judiar do Goiás: sentindo o bom momento, com o jogo praticamente definido, resolveu ocupar mais o espaço na frente da zaga deles e colocou Deyvid Sacconi no lugar do Ortigoza, extenuado.
Trazendo a bola de trás, mesmo com Obina isolado, o time continuou mandando no jogo, e rapidamente saiu a tabelinha do terceiro gol, o mais bonito: de Deyvid para Obina, de Obina, de calcanhar, para Deyvid, que bateu cruzado: 3×0, aos 39. A essa altura, até eu passei a acreditar no placar do Toninho, que já estava quase chorando…
E aos 42, já aproveitando o espaço deixado pela expulsão de Rafael Toloi, pra completar a festa, o gol antológico: passe de Marcão – Marcão! – para Obina, mais uma vez na velocidade – Obina na velocidade, no fim do jogo, vejam bem – ele entrou em diagonal e tocou com extrema categoria no canto oposto. Era o quarto gol, o terceiro do Obina, e a profecia do Toninho se concretizava.
O juiz carioca, que ainda deixou de dar dois pênaltis a nosso favor, apitou o fim do jogo e o que se viu no Palestra foi uma coisa maravilhosa. Ninguém arredava pé do estádio, apesar da chuva fina que resolveu cair depois do terceiro gol. O time comemorou unido, no centro do gramado. Muricy batia no braço e no peito, e vibrava como um torcedor. A torcida, aliviada, vendo o time recuperar a liderança que, afinal, nunca perdera, e assistindo finalmente a uma boa exibição, bradava: EI, IMPRENSA, VAI TOMAR NO CU! – era a resposta para o carnaval feito nas 24 horas que durou a falsa liderança bambi, à tortura mental que foi imaginar o que aconteceria em caso de mais um resultado negativo.
O Verdão lavou a alma. Recuperou a liderança, recuperou a confiança, dos jogadores e dos torcedores. Recuperou mais da metade do saldo de gols que havia perdido nas rodadas anteriores. Ganhou um ponto em relação à vantagem que tinha no início da rodada, e ainda recuperou a condição de poder tropeçar uma vez. Com esse aumento no saldo de gols, o Palmeiras pode empatar um jogo, desde que o bambi não ganhe por cinco gols, que permanece líder. E agora são apenas seis rodadas para o final.
Como as coisas mudam rápido no futebol, hein…
Atuações:
Marcos: uma boa defesa no início, uma mais ou menos no segndo tempo, e não teve muito mais o que fazer. 8
Mauricio Nascimento: um pouco confuso na marcação de Iarley. 6,5
Danilo: preciso como sempre, e ainda tentou orientar o posicionamento. 7
Marcão: uma de suas melhores partidas. O Kleine me ligou depois do jogo, emocionado. 8,5
Figueroa: participativo, tático, coletivo. Resolvemos o problema da lateral-direita. 8,5
Souza: vinha errando todos os passes no primeiro tempo. No segundo tempo, fez a jogada iluminada que abriu a porteira. 8
Edmilson: destoou do time, mais uma vez. Não joga domingo, assim como Sandro Silva, suspenso. Deve vir Jumar ou Wendel. Mesmo se não tivesse se lesionado, deveria sair da mesma forma. 4
Diego Souza: o único que teve uma marcação mais específica, mesmo assim, foi bem diferente do jogador apático que vimos depois da maledetta convocação. 8
Armero: continua pouco inteligente, mas cada vez mais importante como opção de escape pela esquerda. E como corre! 7
Ortigoza: grande partida. Auxiliou a articulação, se desdobrando pelos dois flancos; correu, brigou, até os 15 minutos do seundo tempo, quando pregou e passou a errar tudo. Mesmo assim, ainda ficou em campo mais 15 minutos, até sofrer o pênalti. 9
Obina: tem o que falar? DEZ
Sandro Silva: deu a consistência que faltava ao meio-campo. Uma pena ter recebido o terceiro amarelo. 9
Deyvid Sacconi: foi o toque de crueldade de Muricy. Com o Goiás entregue, ele transformou uma bela vitória numa goleada impiedosa. 8,5
Robert: ficou alguns segundos em campo. S/N
Muricy: chamou o time na xinxa e deu resultado. Contou com uma dose de sorte – a contusão de Edmilson. É assim que se ganha campeonato. 8