Depois de conversar com muitas pessoas, palmeirenses ou não-palmeirenses, ligadas ao futebol ou distantes, experientes ou ainda bastante jovens, e depois de pensar demais, cheguei a uma conclusão do que pode ter acontecido com o time na reta final do Brasileirão, quando fracassou miseravelmente. Longe de querer apontar a solução Tabajara para todos os problemas do clube, espero que este post extra sirva para abrir uma discussão sadia e que venha a acrescentar algo nas estruturas do clube.
Vamos começar eliminando as razões equivocadas que andaram pipocando por aí, principalmente nos momentos em que estavam todos ainda atordoados com as seguidas derrotas e quando se tem a capacidade de falar besteira absurdamente aflorada.
Taticamente, o time não se perdeu. Muito ao contrário. Podemos enumerar uma série de partidas em que o Palmeiras entrou muito bem no jogo, comandou as ações, criou as chances, mas a bola não entrou – e num detalhe ou outro, o adversário abriu o placar, e o Palmeiras desmoronou emocionalmente. Jogos contra o Flamengo, Santo André, Fluminense, Grêmio e até o Botafogo são os exemplos mais claros que se encaixam nessa descrição. Muricy, embora não contasse com jogadores indicados por ele, pegou o barco andando e tocou, se não brilhantemente, de forma correta.
O grupo não estava rachado. Depois de apurar com trocentas fontes diferentes, a descrição de todos é a de um grupo com bastante harmonia. A chegada de Vagner Love não enciumou ninguém. Não existia corpo mole de ninguém.
Diego Souza é um jogador capaz de jogadas espetaculares, mas quando se abate durante um jogo, o melhor a fazer é tirá-lo de campo e esquecer de acreditar num lampejo. Sua capacidade de reação é reduzida, pra não dizer nula. Sua apatia durante os jogos era resultado disso, e não de nenhuma birrinha com Love.
Vagner Love, aliás, que parece que não tinha mesmo muito interesse em suar a camisa, e seu comprometimento estava muito mais com a night. Acho até natural que depois de cinco anos na Rússia, que ele quisesse tirar o atraso, mas isso não poderia ter afetado tanto assim seu rendimento. A diferença do Love de 2009 para o de 2004, quando era o melhor atacante do futebol brasileiro, é gritante. Não é nem sombra do artilheiro do primeiro turno do Brasileiro de 2004 e que foi vendido ao CSKA por preço de banana. A palavra-chave nesse caso me parece comprometimento.
Alguém também precisava chegar no Marcos e falar pra ele deixar de ser jeca. Tem que ser mais malandro. As declarações dele após os jogos mais críticos, principalmente contra o Flamengo, não são coisas que um líder deve fazer. E ele não faz por maldade. Fala porque é espontâneo, até demais. Jecão mesmo. E quem tá falando isso é um sorocabano.
Sugiro estabelecer a ele uma multa a cada declaração prejudicial ao grupo. Se não vai por bem, vai por mal. De toda forma, por ser muito querido pelo grupo, as coisas acabam se contornando mais cedo ou mais tarde. Mas é inegável que num primeiro momento suas declarações fazem estragos e aumentam a tensão geral sobre o time.
Mas se temos um Diego Souza que se abate demais, se temos um Marcos com a língua solta, se temos um Vagner sem o devido comprometimento, além de Pierre e CleitonX contundidos, o que poderia ser feito para evitar essa derrocada vergonhosa?
A tese passa pela formação dos jogadores. O mercado inflacionou muito a partir de 93, quando a Parmalat deu a primeira grande injeção de recursos no futebol. Para se manterem competitivos, os rivais foram encontrando maneiras de também captarem seus recursos – alguns lícitos, outros nem tanto. E o resultado é que o futebol brasileiro viu as cifras que o envolvem crescerem de forma exponencial nos últimos 15 anos.
Some-se a isso a popularização dos campeonatos europeus no país, através das televisões a cabo – coisa que também não existia na era pré-Parmalat. E temos algo que já ficou fácil de perceber nas categorias de base: jogadores que não começam a jogar bola por ambição esportiva, mas sim pensando numa carreira. E o resultado é que as grandes camisas estão cada vez mais perdendo a força. Ninguém mais respeita uma camisa de um time como antes. Os times grandes hoje são meros meios, não são mais fins.
O que termos hoje é a primeira geração de boleiros que já nasceu assim, que já usava correntonas e brincões nas divisões de base, e cujo sonho maior sempre foi usar a camisa do Real Madrid ou do Milan. E quando vê que não dá, se contenta em ficar um ano aqui, outro ali, e ir somando multas de rescisão na carreira e ganhando dinheiro. E quanto menos comprometimento com um lugar, melhor.
Isso, em tese, afeta todos os clubes. Vai se dar melhor o clube que conseguir contornar esse tipo de dificuldade que não existia antes. Alguns treinadores têm esse dom. Luxa é um deles, ele apenas perdeu o foco e deixou de funcionar como poderia. Felipão, o maior de todos, prepara sua volta ao país para 2011. De resto, não há outros. Então é preciso que cada clube tenha aquele grande líder, respeitado, e até temido, que faça esse papel.
No ambiente corporativo, se o desempenho de uma peça cai, e o gerente imediato já não tem aquele moral para exigir uma retomada, entra em cena aquele cara mais graduado, que não aparece quase nunca, mas que todos sabem que existe, e que está presente. E que quando ele aparece, a traseira de alguém está na reta.
No Palmeiras, temos várias figuras que se, somadas, reúnem todas essas características. Mas isso não adianta. Muricy passa longe disso. É técnico, apenas técnico, e seu perfil passa longe de ser o cara que controla o emocional de seus comandados. Só isso já faz com que ele não seja tão “de ponta” assim – mas isso é assunto pra outra discussão.
Se o Toninho Cecílio chamar o Diego Souza na sala dele, esmurrar a mesa e exigir desempenho, não vai adiantar. Ele é um gerente remunerado com pouco poder de decisão e todos sabem disso. Cipullo não tem esse perfil durão; é um advogado inteligente e que não tem no tom de voz nem nas expressões faciais os meios para conseguir o que quer. E Belluzzo acabou de chegar, é pouco conhecido pelos jogadores e no pouco contato que teve com eles já se mostrou uma pessoa muito afável.
O Palmeiras precisa de um sujeito que conheça os aspectos pessoais de cada jogador, mais do que eles mesmos pensam – como poderia ser o Muricy, pelo contato direto; com fama de bravo e durão, como o Toninho; que tenha uma presença física junto aos jogadores não tão frequente, até pela posição hierárquica, como o Cipullo, e com o carisma do presidente Belluzzo. E que quando ele chame o Vagner na sala pra uma conversa, ele já entre na sala borrado de medo. Que possa chegar no Marcos e dizer: porra, de uma vez por todas, dá pra você parar de falar merda pra imprensa, caralho??? Ou que chegue pro Diego Souza e diga que ele é um jogador onde foram investidos milhões de dólares, que é o líder técnico do time, e que não podemos estar sujeitos a abatimentozinhos durante a partida, que tem que pegar a bola, por debaixo do braço e virar a porra do jogo.
O Palmeiras fez tudo certo este ano. Investiu pesado pra ganhar o título, que era possível até a última rodada. A eliminação até da Libertadores foi um castigo muito duro para uma equipe que trabalhou firme, sério, que segurou os maiores valores do elenco na janela do meio do ano, que estabeleceu uma política de pagamento de prêmios agressiva, que conseguiu vitórias expressivas no STJD, que foi buscar o atacante dos sonhos de todos os times lá na Rússia e ainda ganhou a disputa com o time de preferência do jogador. O que faltou não foi um mero detalhe. Falta uma peça que seja a própria identidade do Palmeiras, e que os jogadores, mesmo estando de passagem e se comportando como tal, respeitem e tenham vergonha de olhar na cara se fizerem uma cagada como essa que fizeram ao perder ese campeonato.
Como a diretoria vai preencher essa lacuna, não sei. Mas está na hora dos diretores veteranos iniciarem um programa de formação de novas lideranças, caso contrário o futuro do Palmeiras, no curto e no longo prazo, será muito complicado.
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